Ray Charles – O gênio do soul

Ray Charles – O gênio do soul


ray-charles-photo-david-redfernConsiderado um dos maiores expoentes da música americana e mundial, Ray Charles definiu um estilo e influenciou dezenas de músicos de várias gerações

Muitos definem soul music como “música que vem do fundo da alma”. A literalidade da explicação pode ter fundamento se levarmos em conta de onde o estilo surgiu. Em meados das décadas de 1950 e 1960, o músico Ray Charles fundiu as influências negras que trazia da infância ao arsenal de ritmos e impressões coletadas durante a adolescência. Mais do que isso, implantou em sua maneira de cantar e tocar todas as mágoas que recebeu de herança. O fato de ser negro lhe causou uma sequela física: a cegueira. O fato de ser cego lhe abriu as portas da expressão musical.

A história
O nascimento de Ray Charles Robinson está registrado no dia 23 de setembro de 1932, em Albany, na Geórgia, mas é mais provável que tenha ocorrido alguns anos antes. Há certas passagens na vida do músico, principalmente as que se referem à sua infância, que permanecem nebulosas. O que se sabe é que a família Robinson foi acometida por dois duros golpes que tiveram influência direta na personalidade do pianista e em sua música. O primeiro foi a repentina e desconcertante morte de George, irmão mais velho de Ray, que caiu em uma tina de água enquanto os dois brincavam e não conseguiu sair de lá, vindo a se afogar. Pouco tempo depois, com a família já morando na Flórida, Ray Charles foi acometido de uma doença infantil, provavelmente glaucoma ou mesmo uma infecção nos olhos causada por água contaminada, que deixou como sequela a perda gradativa da visão. Por falta de atendimento – já que ele era negro e os médicos, brancos – o menino ficou cego, não antes de registrar na memória uma última imagem: sua mãe chorando. Prevendo as dificuldades que ele poderia ter de enfrentar durante a vida, os pais continuaram a tratá-lo como a um menino normal. “Um cego não é um tolo. Nem um vadio”, diziam. O contato com a músico teve início em uma escola para cegos, onde Charles aprendeu a tocar piano pelo método Braille. Estudou os clássicos, mas aventurava-se a tocar “música negra”: blues, jazz, boogie e hinos religiosos. Também aprendeu algo de guitarra, clarinete e saxofone, instrumento com o qual chegou a se apresentar e, mesmo no fim da vida, exibia conhecimento.

blind-singer-ray-charles-playing-chess-on-a-board-with-special-niches-bill-ray-1966Aos dezessete anos, ficou órfão e entregou-se às drogas, vício que jamais abandonou. O início de carreira foi idêntico ao de muitos outros jazzistas: como músico em clubes de baixa categoria. Pouco tempo depois, a fim de imitar o popular Louis Jordan, conseguiu formar um pequeno conjunto. Em 1948 mudou-se para Seattle, em Washington, onde seu trio – Maxim – e ele mesmo começaram a ficar conhecidos, sendo o primeiro conjunto negro a ter um programa exclusivo na televisão do noroeste dos Estados Unidos. Nessa época, aproximava-se mais do estilo de Nat King Cole, por considerá-lo refinado e um bom exemplo de música negra norte-americana, na qual as raízes não eram depreciadas nem omitidas, tampouco exacerbadas.

Depois de trabalhar em diversas orquestras de rhythm & blues e de integrar os grupos de Lowell Fulson e Bumps Blackwell, Charles desembarcou em Los Angeles, onde gravou seu primeiro disco, como Ray Charles Trio. Pouco depois, veio a gravação, com sua própria orquestra, de “Baby Let Me Hold Your Hand (OH! Baby)”, música que o consagrou e o tornou nacionalmente conhecido. Em 1952, o músico assinou com a gravadora Atlantic, com a qual permaneceu durante essa década, fixando residência em Nova York. Inserindo cada vez mais elementos da cultura negra norte-americana em suas produções, como a introdução de ritmos gospel nas músicas de R&B, Charles ajudou a definir o formato do gênero que hoje se conhece por soul.

RAY CHARLES, CULVER CITY, CALIFORNIA, 1991Quando o rock’n’roll estourou com Elvis Presley, em 1955, e cantores negros como Chuck Berry e Little Richard foram promovidos, Ray Charles aproveitou o espaço aberto na mídia e lançou sucessos como “I Got a Woman” – canção em que pela primeira vez usou seu inconfundível estilo gospel, apoiado por uma seção de metais -, além de “This Little Girl of Mine,” “Drown in My Own Tears,” “Hallelujah I Love Her So,” “Lonely Avenue,” and “The Right Time”, todas hits. Mas Ray Charles não cativou realmente o público até What’d I Say, em que utilizou a energia dos vocais da igreja e o espírito do rock’n’roll em formação clássica com piano elétrico. Foi seu primeiro sucesso realmente popular, figurando entre os Top Ten, e o último pela Atlantic. Em 1958, apresentou-se no Festival de Newport – em um concerto histórico, acompanhado de um sexteto e do grupo de backing vocals feminino Raelletes – e, na sequência, no Carnegie Hall, o que lhe abriu as portas do sucesso internacional. Seus discos vendiam muito bem graças à bem dosada mistura de blues, jazz, gospel e country, mesclada a canções mais melodiosas bem ao gosto do público da época. Esse cacife o levou a assinar com a gravadora ABC, com cláusulas no contrato que garantiam a Charles maior grau de controle artístico em suas gravações. Sucessos como “Unchain My Heart” e “Hit the Road Jack” solidificaram seu estrelato pop, com apenas um pouco de polimento, aperfeiçoado na Atlantic, ao R&B.

 

Em 1962, Ray Charles surpreendeu o mercado fonográfico e o público mundial voltando sua atenção para a música country e western, chegando ao topo das paradas com o single “I Can’t Stop Loving You” e talvez seu álbum mais popular: Modern Sounds in Country and Western Music. O astro se manteve extremamente popular até meados dos anos 60, realizando grandes sucessos como “Busted”, “You Are My Sunshine”, “Take These Chains From My Heart” e “Crying Time”, mas sua carreira foi retardada pela heroína. Afastado durante um ano das atividades, retomou a carreira em 1966, com “Let’s Go Get Stoned”. Nessa época, no entanto, Charles estava se concentrando cada vez menos em rock e soul, em favor de músicas pop, muitas vezes com arranjos de cordas, que pareciam mais direcionadas o público de easy listening.

 

Suas gravações após os anos 60 foram decepcionantes. O mundo esperava o retorno ao estilo dos grandes clássicos soul gravados nos dez anos entre 1955 e 1965, mas, apesar da voz permanecer intacta, seu foco estava na música popular capaz de agradar mais facilmente os ouvintes. Ray Charles faleceu aos 73 anos no dia 10 de junho de 2004.

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“Don´t Let The Sun Catch You Crying”
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