João Donato: personalidade desbravadora e modernidade precoce

Pianos e Teclados

João Donato: personalidade desbravadora e modernidade precoce

João Donato: personalidade desbravadora e modernidade precoce

João Donato é cultuado como gênio incompreendido - tanto no Brasil quanto no exterior - e é reconhecido como um dos precursores da bossa nova, tendo criado, a seu modo, obras hoje consideradas clássicas da música brasileira e internacional.

Como João Donato começou a carreira musical no Rio de Janeiro?

João Donato deixou Rio Branco, no Acre, aos 11 anos rumo ao Rio de Janeiro, já tocando acordeon e piano. Logo passou a se apresentar em festas de colégio, onde conheceu o grupo Namorados da Lua e fez amizade com Lúcio Alves, Nanai e Chicão.

Aos 15 anos, iniciou a carreira profissional como integrante do grupo Altamiro Carrilho e Seu Regional, participando, algum tempo depois, da gravação de um disco em 78 RPM contendo a canção “Brejeiro”, de Ernesto Nazareth. O contato com o jazz veio logo em seguida, e Donato tornou-se membro do Sinatra-Farney Fan Club.

Ele também atuou em casas noturnas do Rio de Janeiro, entre elas:

  • Plaza, onde o titular era Johnny Alf
  • Drink
  • Sacha's
  • Au Bon Gourmet

Nesse período, fez amizade com Tom Jobim, João Gilberto, Luiz Bonfá e outros expoentes do movimento que ganhava corpo e ao qual influenciou definitivamente: a bossa nova. Entre os grupos que formou estão:

  • Donato e Seu Conjunto
  • Os Namorados
  • Trio Donato
  • Os Copacabanas

Como foi a primeira passagem de João Donato pelos Estados Unidos?

Em 1959, João Donato viajou para o México com Nanai e Elizeth Cardoso e, dali, seguiu para os Estados Unidos, onde permaneceu por três anos atuando com Carl Tjader, Johnny Martinez e Mongo Santa Maria. Nesse período, também excursionou pela Europa ao lado de João Gilberto.

Donato retornou ao Brasil em 1962, quando gravou os LPs Muito À Vontade e A Bossa Muito Moderna de João Donato e seu Trio.

Por que João Donato voltou a morar nos Estados Unidos por mais de uma década?

Considerando-se incompreendido no Brasil por ser “moderno demais”, João Donato mudou-se novamente para os Estados Unidos, onde ficou por mais de uma década. Lá, gravou com o saxofonista Bud Shank e com a violonista Rosinha de Valença.

Nesse período, lançou os discos:

  • Piano of João Donato - The New Sound of Brazil
  • A Bad Donato
  • Donato Deodato - Featuring João Donato, com arranjos de Eumir Deodato

Donato também atuou com outros artistas nos Estados Unidos, como Astrud Gilberto, Dorival Caymmi, Tom Jobim, Stan Kenton, Nelson Riddle, Herbie Mann e Wes Montgomery.

Como surgiu o sucesso do disco Quem É Quem?

A música de Donato sempre foi considerada pouco comercial e popular. Em seu retorno ao Brasil, em 1971, prestes a gravar um disco, ele recebeu um conselho do cantor Agostinho dos Santos que lhe abriu as portas do sucesso por aqui: o de colocar letras nas músicas para cantá-las.

A tarefa de escrever as letras foi entregue a amigos do compositor, às vezes mais de um para a mesma melodia, e resultou no antológico Quem É Quem, lançado em 1973, com canções como:

  • "Terremoto"
  • "Chorou, Chorou"
  • "Até Quem Sabe"
  • "Cadê Jodel?"

Em 1975, Donato retomou o formato no disco Lugar Comum, com as músicas "Naturalmente", "Ê menina", "Xangô é de Baê", "Tudo Tem", "A Bruxa De Mentira", "Deixei Recado", "Que Besteira" e "Emoriô", além da faixa-título e "Bananeira".

Por que João Donato ficou quase 20 anos sem gravar?

Apesar do sucesso de Quem É Quem e Lugar Comum, o mercado da época não assimilava mais o estilo de Donato, até mesmo difícil de definir, e o músico ficou por quase 20 anos sem gravar, retomando os registros apenas em 1996.

Considerado um dos precursores e difusores da bossa nova, e ícone do gênero instrumental, Donato é homenageado como um dos grandes compositores da música popular brasileira, com músicas gravadas por nomes como:

  • Gal Costa
  • Gilberto Gil
  • Caetano Veloso
  • Tim Maia
  • Leny Andrade
  • Nara Leão
  • Maysa
  • Dóris Monteiro
  • Raul de Souza
  • Joyce
  • Bebel Gilberto
  • Simone
  • Fafá de Belém
  • Leila Pinheiro
  • Baden Powell
  • Zizi Possi
  • Adriana Calcanhotto
  • Angela Rô Rô
  • Nana Caymmi

https://www.youtube.com/watch?v=TP-5vhmf0WE

Quais foram as principais gravações de João Donato ao longo da carreira?

AnoDisco
1962Muito À Vontade
1962A Bossa Muito Moderna de João Donato e seu Trio
1973Quem É Quem
1975Lugar Comum

Como foram as comemorações dos 80 anos de João Donato?

Nas comemorações de seus 80 anos, em 2014, João Donato foi reverenciado com homenagens por todo o Brasil, incluindo um piano comemorativo com sua assinatura, uma exposição multissensorial sobre sua vida e obra, além de gravações de shows, CDs, DVDs e uma série documental que lançam mais luzes sobre a carreira do controverso compositor.

Entrevista com João Donato

Como iniciou a carreira como acordeonista?

Na primeira gravação do Altamiro Carrilho, quando ele gravou aquele chorinho, o “Brejeiro”, e me colocou para tocar com ele. Eu tocava acordeon na rádio Guanabara, onde Altamiro mantinha um regional. Então, quando ele foi gravar pela primeira vez, um 78 rotações ainda, me convidou para fazer parte do grupo. Gravei pela primeira vez aos 18 anos ou algo assim.

Por que você fez a transição para o piano?

Foi uma consequência natural. Eu gostava do piano, desde pequeno, achava um instrumento muito bonito, muito completo, com 88 teclas, que abrangia todos os instrumentos da orquestra, do grave ao agudo. Eu tocava acordeon e achava incômodo ter que carregar aquele peso para casa. Eu estava em Los Angeles, em certa época. Tinha viajado para lá com o acordeon debaixo do braço para fazer parte de um grupo de brasileiros que já estavam nos Estados Unidos: Carmem Miranda, aquele pessoal que tinha ido muito tempo atrás, como o Carioca, o Nestor, o Nonô. Mas não me adaptei com eles. Um belo dia, fiquei com preguiça de trazer o acordeon para dentro de casa e deixei no carro. Na manhã seguinte, já não estava mais lá. Aproveitei e nunca mais comprei outro. E nunca mais toquei acordeon também.

Nunca mais?

Nunca. Fiquei no piano. Sempre foi um instrumento que me atraiu muito, desde pequeno. Eu ouvia minha irmã tocar aqueles métodos do Hanon. Eu era três anos mais novo que ela que, bem novinha, estudava piano. Então, minhas primeiras ideias de música são das escalas dos métodos de principiante que minha irmã tocava e que me acordavam de manhã cedo. Depois que ela saía do piano, eu ia para lá brincar também. Procurava tirar algum sentido nas teclas e fui criando gosto pelo instrumento. Mas ganhei um acordeonzinho de brinquedo de Papai Noel (rs). Aí comecei a tocar “Ciranda Cirandinha”, “Cai Cai Balão”, essas coisas. Notaram minha tendência para a música e me colocaram para estudar piano. Comecei, então, com uma professorinha no Acre. Mas depois continuei, com o tempo, estudando em todos os lugares por onde ando. Procuro estudar um pouco com as pessoas do lugar.

Então sua experiência nos Estados Unidos, e aqui em São Paulo e Rio de Janeiro, com os músicos da noite, foi importante para desenvolver sua linguagem pianística?

As experiências foram muitas. Teve o Noites Cariocas, aqui no Brasil, nos anos 50, quando comecei. João Gilberto, Tom Jobim, Johnny Alf, o pessoal da bossa nova, Carlos Lira, Roberto Menescal, Milton Banana, Roberto Carlos querendo dar canja nas boates. E eu o incentivando, principalmente, a ir para a Europa, por que nem sempre éramos muito bem recebidos em todos os lugares. Essa época foi muito importante. Em seguida, fui para os Estados Unidos. Eu tinha muita dificuldade para achar trabalho aqui porque diziam que minha música era muito moderna para a época, muito dissonante, muito isso, muito aquilo... Eu ouvia muito disco de jazz americano e sabia que lá se tocava do jeito que eu queria e aqui não tinha oportunidade de fazer. Então fui para os Estados Unidos, em um convite que teve para os brasileiros. Mas terminou nosso compromisso de quatro semanas em um lugar e, quando pensei em voltar, eles falaram: “não dá para voltar agora, porque nós mandamos uma passagem para você – eles compravam à prestação – você vai ter primeiro que pagar essa passagem”. Então fui ficando para pagar a passagem. Não havia trabalho. O pessoal com quem eu tinha ido me encontrar achava que eu era muito americanizado para o estilo deles. Eles tocavam aquele estilo brasileiro bem “Carmem Miranda” e eu cheguei com as novidades da bossa nova. Eles acharam estranho e me deixaram para trás. Fiquei sozinho em Los Angeles, sem conhecer ninguém, a não ser o Laurindo de Almeida. Eu o conhecia de nome e sabia que tocava com a orquestra de Stan Kenton. Mas ele também não queria muita aproximação, porque, sabe como é, brasileiro que procura outro brasileiro no exterior sempre precisa de alguma coisa. Então, quando falei para o Laurindo que era brasileiro, compositor, pianista e tudo mais ele falou: “Ah, manda suas músicas pelo correio” (risos). Ele não queria aproximação. Fiquei perambulando pelos Estados Unidos sem nada, sem conhecer ninguém. Sofri um bocado lá, passei uns perrengues, uns apertos, mas acabei sendo contratado pela orquestra do Johnny Martinez, que era a big band que mais trabalhava em Los Angeles. Daí fui para a orquestra do Mongo Santa Maria, em Nova Iorque, onde fiquei por uns três ou quatro anos. Em seguida, explodiu a bossa nova nos Estados Unidos e todos os brasileiros que foram para lá me procuravam para organizar um trio - piano, baixo e bateria - para acompanhá-los em diversos programas de televisão ou shows e gravações. Assim aconteceu com Tom Jobim, João Gilberto, Astrud Gilberto, Dorival Caymmi, todos passavam lá e me telefonavam. Eu já estava entrosado com o pessoal de Los Angeles, tinha amigos americanos com descendência de mexicanos como Ralf Peña (contrabaixista) e Chuck Flores (baterista).

Apesar de a bossa nova acontecer aqui, você já estava fazendo bossa nova lá....

O problema é que eu era sozinho. E era complicado eu poder me expressar sozinho com músicos estrangeiros. Não tinha brasileiro algum comigo. A vantagem do Sergio Mendes foi que ele chegou com o conjunto todo brasileiro. Aí era mais fácil tocar e aquela música ter um sentido interessante. No meu caso, não. Eu tocava minha música, mas o contrabaixista era mexicano, o baterista não sei o quê... Aí a música ficava meio destemperada. Era complicado para mim. Tive que apelar para os artistas latinos, mas eu não sabia tocar o estilo. Aprendi um pouco, praticando esse negócio diariamente. Então chegou a bossa nova...

Por que voltou ao Brasil?

Depois que eu me separei, que nada mais me segurava nos Estados Unidos, fiquei sem motivação de permanecer por lá: “já conheço isto aqui, já sei como é, já descobri que jazz não existe assim tão facilmente”. Eram poucos lugares e muitos músicos querendo tocar. E a maioria dos intervalos era para orquestras latinas, como Perez Prado, Tito Puente, Machito. Quando voltei para o Brasil, o Agostinho dos Santos me disse para colocar letras nas músicas: “ninguém canta suas músicas por que elas não têm letra”, me disse. E eu estava prestes a gravar um disco...

O Quem é Quem...

Isso. Ele tinha toda a razão. Caí de cabeça nesse projeto de gravar um disco cantando, além de tocando piano. Eu já tinha gravado o Muito À Vontade e o Bossa Muito Moderna (A Bossa Muito Moderna de João Donato e seu Trio). Esses discos já tinham história. Agora, eu gravaria com letra. E foi o que aconteceu. Segui o conselho do Roberto Menescal: “para que você vai fazer músicas novas? Pega as que você já tem, diminui o andamento e coloca letra”. Eu tinha muitas músicas gravadas como instrumental. E elas foram mudando de nome de acordo com as letras. “Índio Perdido” virou “Lugar Comum”, “Villa Grazia” se transformou em “Bananeira”, “Jodel” ficou “Café com Pão”. Aí as coisas começaram a acontecer de forma mais popular: “Simples Carinho”, “Até Quem Sabe”, que foi gravada por muitos cantores brasileiros, “Emoriô”, “Nasci Para Bailar...

Mas suas melodias já favoreciam a colocação da letra...

Tenho uma síndrome repetitiva, minha música soa meio repetitiva. Ela tem uma célula que se repete como se fosse um loop ou um refrãozinho. É disso que gosto, essas repetiçõezinhas que se apresentam como se fossem uma coisa primária, bem simples. Mas dizem que o mais simples é bem complicado. Escolas de filosofia por aí dizem que o simples é o complicado sofisticado. Gosto dessa coisa e é nesse simples que está a complicação toda. Meu compositor preferido, por exemplo, é Debussy, que é o mais simples de todos e, ao mesmo tempo, o mais complicado, porque a harmonia dele é absurda até hoje e vamos descobrir os acordes dele e usar ainda por muito tempo. Ele influenciou o jazz, a bossa nova, o popular americano. A harmonia dele é maravilhosa.

Como vê o panorama atual da música brasileira?

Está estagnada. Na época da bossa nova houve uma renovação: mais melodia, mais harmonia, um jeito de cantar diferente. Depois, passaram a cantar gritando. Agora abaixou um pouquinho, mas a música está estagnada. Sinto falta de inspiração nas composições. Espero que venha uma nova onda.

Quando você iniciou, os centros musicais eram São Paulo e Rio de Janeiro. Atualmente, um jovem músico do Acre teria que sair de lá para fazer sucesso?

Rio e São Paulo permanecem. Há Minas também, Bahia... Pernambuco também é interessante, mas a grande quantidade de acontecimentos é em Rio e São Paulo. Ainda é assim. Os músicos do nordeste vem para cá, de todos os Estados. Aqui se tem maior exposição na mídia. A maior parte do tempo em que estou trabalhando no Brasil, é em São Paulo.

Como definiria sua música?

Eu diria que é um jazz brasileiro, uma mistura de várias influências. Há quem diga que é um estilo “Donatiano”, mas não posso dizer isso. Diria que é um jazz latino brasileiro.

https://www.youtube.com/watch?v=dQp9uRk4Qf4

Perguntas frequentes sobre João Donato

Por que João Donato trocou o acordeon pelo piano?

Ele sempre foi atraído pelo piano, que considerava um instrumento completo, com 88 teclas cobrindo do grave ao agudo. Certa vez, nos Estados Unidos, deixou o acordeon no carro por preguiça de levá-lo para dentro de casa e o instrumento desapareceu; ele nunca mais comprou outro nem voltou a tocar acordeon.

Por que João Donato foi para os Estados Unidos na primeira vez?

Ele viajou a convite de um grupo de brasileiros que já estava por lá, mas não se adaptou, pois o grupo tocava um estilo mais antigo enquanto ele chegava com as novidades da bossa nova. Ficou sozinho em Los Angeles até ser contratado pela orquestra de Johnny Martinez e, depois, pela de Mongo Santa Maria, em Nova Iorque.

Por que João Donato voltou a morar no Brasil?

Depois de se separar, nada mais o prendia aos Estados Unidos, e ele sentia que já conhecia bem aquele cenário e que o jazz não oferecia tantas oportunidades quanto imaginava. Ao voltar, recebeu de Agostinho dos Santos o conselho de colocar letras em suas músicas, o que o levou ao disco Quem É Quem.

Como surgiu o disco Quem É Quem?

Seguindo conselho de Roberto Menescal, Donato aproveitou melodias instrumentais que já tinha gravado, diminuiu o andamento e colocou letra, mudando até os títulos: “Índio Perdido” virou “Lugar Comum”, “Villa Grazia” virou “Bananeira” e “Jodel” virou “Café com Pão”.

Como João Donato define sua própria música?

Ele descreve sua música como um jazz brasileiro, uma mistura de várias influências, preferindo o termo “jazz latino brasileiro” à ideia de um estilo “Donatiano”.

Como João Donato vê o panorama atual da música brasileira?

Segundo ele, a música brasileira está estagnada; depois da renovação trazida pela bossa nova, os cantores passaram a cantar gritando, e falta inspiração nas composições atuais, embora ele espere que venha uma nova onda.

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