Amilton Godoy – Mestre dos mestres

Amilton Godoy – Mestre dos mestres


amilton foto Rafael IaniiAmilton Godoy fez história à frente de um dos mais icônicos grupos da música brasileira, criando e sedimentando nosso estilo instrumental de maior projeção internacional, e, hoje, transmite a bagagem de conhecimento acumulada em mais de 60 anos em sua escola na capital paulista, onde já formou diversas gerações de músicos da mais alta qualidade

 

Não se pode dissociar o nome do pianista Amilton Godoy do grupo que estabeleceu as bases da moderna música instrumental brasileira: o Zimbo Trio. Nascido no auge do movimento de renovação de nossa música, por volta de 1964, e formado por Rubens Barsotti e Luiz Chaves, além do próprio Godoy, o conjunto trazia a proposta de tocar música brasileira de qualidade, com todo o requinte que a sólida formação instrumental dos músicos e a excelente escolha de repertório poderia proporcionar. O sucesso imediato alavancou a carreira do grupo e o tornou referência de estilo e identidade na fusão da música brasileira com o jazz. Hoje, passados mais de 50 anos de sua criação, o Zimbo Trio ainda é o exemplo a ser seguido por centenas de grupos instrumentais, que levam e elevam nossa música a  patamares cada vez mais altos.

História
Amilton Godoy é natural de Bauru, cidade do interior paulista, e nasceu em uma família de músicos. O avô tocava alaúde e seu pai tocou violino em orquestra e trabalhava como trompetista em uma boate da cidade. Um de seus tios  por parte de pai tocava trompete. Outro, por parte de mãe, era maestro e pianista. O ambiente musical da casa era  propício: seus dois irmãos – Adilson e Amilson – tornaram-se profissionais. Sua primeira professora foi Nida Marchioni, que lecionava pelo método tradicional. As harmonias e melodias populares surgiram por influência do pai e  do tio: o grupo formado por Amilton, então com 11 anos, e os irmãos já fazia sucesso pelo interior paulista. A  proximidade com o “não erudito” fez que a mestra se recusasse a continuar lhes dando aulas, forçando-os a procurarem por alternativas. Mas a base técnica sólida – iniciada com os tradicionais Czerny e Beringer – seria de muita valia no futuro. Efísio Aneda, outro professor da cidade, recebeu Amilton e os irmãos e lhes deu aulas, incluindo harmonia tradicional, até falecer, dois anos mais tarde. Sem opções, os garotos voltaram a estudar com a antiga professora, até que ela aconselhou o pai a enviá-los a São Paulo. Depois de um teste com Nellie Braga, Amilton passou a estudar na escola Magdalena Tagliaferro, que o levou a participar de concursos e acumular prêmios. Em 1962, foi terceiro colocado no Concurso Nacional da Bahia, prêmio conquistado novamente em 1963 no Concurso Nacional do Rio de Janeiro. No ano seguinte, foi vencedor do IV Concurso Nacional Eldorado e Medalha de Ouro no Prêmio Governador do Estado de São Paulo, além de vencedor do Concurso Nacional Hora de Arte como Melhor Intérprete de Villa-Lobos. A carreira erudita parecia pavimentada, mas o popular falou mais alto.

2012-11-musica-2O jazz e o Zimbo
Para manter-se em São Paulo, além da bolsa de estudos que ganhou em um dos concursos, Amilton passou a trabalhar  como músico. Para isso, precisou aprender a aplicar o conhecimento adquirido nas aulas de piano e harmonia no repertório popular. Logo recebeu o convite do saxofonista Casé para integrar seu quinteto. Aprendeu, então a improvisar, tirando de ouvido as músicas e desenvolvendo seus próprios solos baseados nos discos que ouvia. Tendo  como parâmetros George Shearing e Oscar Peterson e, no Brasil, Moacyr Peixoto e Dick Farney, Amilton uniu a formação clássica com a espontaneidade do jazz e da música brasileira, formando seu repertório de recursos e  linguagens.

O Zimbo Trio foi formado a partir do convite feito pelo baterista Rubinho Barsotti para compor, ao lado do contrabaixista Luiz Chaves, um trio para tocar na Boate Baiúca. O primeiro show com o nome, porém, foi na Boate Oásis, no centro de São Paulo, em 17 de março de 1964, acompanhando Norma Bengell. O termo Zimbo, retirado do dicionário afro-brasileiro, significa boa sorte, felicidade e sucesso. Zimbo era também uma antiga moeda que circulava no Congo e em Angola. Em 1965, o trio passou a fazer o acompanhamento fixo do programa O Fino da Bossa, da TV Record, apresentado por Elis Regina e Jair Rodrigues, que divulgava novos talentos. O resto faz parte da história! A sonoridade e a qualidade musical do Zimbo Trio, influenciador de inúmeros músicos e grupos, estão registradas em 48 discos gravados e lançados no Brasil e em outros 22 países, estabelecendo uma carreira internacional sólida e invejável.

 

O grupo tocou em mais de 40 países e com orquestras sinfônicas da Venezuela, da Argentina, do Uruguai e da Colômbia, além, obviamente, do Brasil, e apresentou-se nas mais importantes casas de espetáculo do mundo. Entre os prêmios conquistados, como Troféu Imprensa, Roquete Pinto, Pinheiro de Ouro, Chico Viola, Índio de Prata e Cândido Mendes, merecem destaque o VII Prêmio Sharp de Música, Prêmio Tim de Música 2008, e o 23º Prêmio da Música Brasileira.

DSCF0074Com a morte de Luiz Chaves, em 2007, e por conta de desentendimentos com a família do baterista Rubens Barsotti, Amilton Godoy, depois de duas outras formações do grupo, abriu mão de usar o nome que ajudou a construir desde  1964. Capitaneando projetos-solo e em parceria com a flautista Lea Freire, tem turnês agendadas pelos Estados Unidos, tanto para apresentações quanto para palestras por escolas de música e Universidades e continua à frente do  Centro Livre de Aprendizagem Musical (CLAM), criada pelo Zimbo Trio. Foi ali, em sua sala na escola, que Amilton Godoy nos recebeu, com a simpatia que as pessoas do interior sabem ter, para uma conversa superagradável, recheada de exemplos musicais e histórias.

A bossa nova foi fortemente influenciada pelo jazz. Mas, graças a músicos como vocês, também o influenciou…
Depois que a bossa nova apareceu, os músicos de jazz começaram a perceber que tinham nas mãos um trunfo: as melodias brasileiras, bem feitas harmonicamente, sobre as quais eles poderiam improvisar e contar suas histórias. Um dos primeiros foi Stan Getz, que era considerado um monstro na época, com o João Gilberto. A Astrud dava um tema e, em algumas gravações, o Stan Getz poderia estar improvisando até agora (risos). É uma beleza ouvir aqueles solos dele. Hoje, a bossa nova, o ritmo, o suingue brasileiro, estão incorporados pelos músicos de fora. Eles encontraram uma linguagem própria para tocar nossa música. Tocam do jeito deles e ficam felizes em dizer que tocam música brasileira. Mas a música brasileira é muito mais que uma levada de bossa nova. Tem muito mais jogada para levar do que simplesmente conduzir em bossa nova. O que o músico brasileiro tem que fazer, sem preguiça, é entrar no folclore brasileiro, nas influências brasileiras, estudar um compositor, pegar uma música e dizer: “essa música tem uma levada diferente”. O que aconteceu com o Zimbo Trio? Nesses 49 anos, foram 40 países. Há alguns em que voltei 17 vezes! Para a América Latina, não dá nem para saber quantas vezes fomos. Europa, Estados Unidos, rodamos o mundo  inteiro, até África.

Como o trio trabalhava os arranjos?
Os três participavam da ideia central que alguém propunha. É importante que o pianista – pela própria característica do
trio, já que ele vai conduzir a melodia – chegue e apresente uma maneira de tocar para os outros músicos perceberem
que podem criar possibilidades em cima daquilo. Isso sempre funcionou muito bem no Zimbo. “Domingo no Parque”, por exemplo. Conheci essa canção porque era do júri que escolhia as 36 músicas do Festival da Record. Eu era responsável pelas músicas. Tinha o Décio Pignatari, um ano, escolhendo a letra. No outro, o Ferreira Goulart. Sempre gente de cabeça aberta, para perceber as coisas novas que estavam surgindo. Para escolher as músicas, eu estava em todos os festivais, desde os tempos da Excelsior. Tínhamos a partitura e tudo mais. Aí ouvi aquela música do Gil. Pego a essência dela com ele tocando com o violão, mostrando a música, sem participação do grupo ainda, ou do Rogério Duprat. Ninguém ainda descaracterizou coisa alguma… “Ponteio”, com o Edu Lobo cantando com o violão… Então, eu partia da essência da música, crua. Assim como com as músicas do Milton Nascimento, que conheci antes de todo mundo! O Zimbo Trio teve essa sorte, de pegar esse pessoal no início. Em um determinado disco nosso, eles começam
a aparecer. O primeiro disco tem uns caras novos: Baden e Vinícius (risos). No terceiro tem os sambas-jazz do Baden. Tteve uma em época que destacamos Chico Buarque. Em outra, Gilberto Gil, e assim por diante.

Quer saber mais sobre Amilton Godoy e o Zimbo Trio? Leia a entrevista completa na revista digital Teclas & Afins em www.teclaseafins.com.br

 

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