Hanon – Como obter técnica e agilidade

Hanon – Como obter técnica e agilidade


97Odiado por uns e amado por outros, o método sugerido por Hanon para a independência dos dedos e a obtenção de velocidade necessita ser estudado de maneira metódica e consciente

Um dos mais utilizados métodos de desenvolvimento de técnica para velocidade, o famoso Hanon – O Pianista Virtuoso esconde algumas complexidades e muitas discrepâncias no que diz respeito tanto ao seu correto uso quanto à sua eficiência. Não são poucos os que defendem que os exercícios apresentados pelo aclamado professor são ineficazes, além de exigir do pianista mais esforço do que o necessário o que, muitas vezes, causa dor. Outros o criticam com o argumento de que os Exercícios Técnicos Diários, de Oscar Beringer, trabalham as teclas pretas, percorrendo todas as tonalidades o que, de fato, Hanon, a princípio, não apresenta. Mas uma análise mais aprofundada do método revela que seu uso é indicado em uma determinada fase do desenvolvimento do estudante de piano e que as vantagens advindas da prática correta dos exercícios apresentados são muito grandes.

O organista, pianista, compositor e pedagogo, Charles-Louis Hanon nasceu em 2 de julho de 1819 em Renescure, na França, e faleceu em 19 de março de 1900, em Boulogne-sur-Mer. Como católico fervoroso, dedicou-se à igreja e à caridade, pertencendo à Terceira Ordem Franciscana e à Sociedade de São Vicente de Paula. Sabe-se por um texto de 1869 que Hanon esteve envolvido com uma ordem monástica chamada “Les Frères Ignorantins”, também conhecida como “Irmãos das Escolas Cristãs.” Fundada no século XVII por São João Batista de La Salle, as escolas dirigidas pela ordem ofereciam instrução para crianças pobres. Uma destas escolas foi criada em Boulogne-sur-Mer, por volta de 1815 por Léon de Chanlaire e pelo Frei Benoit Agathon Haffreingue. O ensino de música gratuito foi oferecido a partir de 1830. Muito provavelmente, o Système Nouveau, para órgão, foi escrito ali para os alunos da instituição. Primeira grande publicação de Hanon – e sua mais bem-sucedida durante a vida – o método para acompanhar cantochão ao órgão foi publicado originalmente em 1859 e permaneceu sendo impresso por mais de 30 anos. Em 1867, o autor foi reconhecido pelo Papa Pio IX que o nomeou membro honorário da Academia de Santa Cecília. Além disso, o compêndio recebeu uma Menção Honrosa na Exposição Mundial de 1867, em Paris. Utilizando por muitas vezes números em vez de notas musicais, também colecionou censuras, sendo chamado de “o mais intolerável, o mais perigoso, o mais inadmissível” e “máscara enganadora para os ouvidos pelos olhos, uma mentira, uma desordem, um caos”, pelo crítico Oscar Comettant, famoso na época.

O Pianista Virtuoso (ou seria virtuose?) foi publicado pela primeira vez em 1874. Apesar de seu lugar de destaque no estudo do piano, ao examiná-lo mais cuidadosamente e compará-lo a outros trabalhos pedagógicos do início do século XIX, chega-se a uma conclusão: o trabalho de Hanon não contém nada inovador. O método é, de fato, muito semelhante a uma série de outros, franceses e alemães do mesmo período, que apresentam uma progressão de exercícios simples e uma variedade de elementos técnicos básicos. Dentre esses, os Études Pour Le Piano, de Aloys Schmitt, publicado uma década antes do nascimento de Hanon, contém exercícios para os cinco dedos que claramente o influenciaram. O exercício de número 170, por exemplo, é idêntico ao primeiro exercício de Hanon publicado aproximadamente 60 anos depois. Como estudos de cinco dedos são fórmulas e não composições, é impossível verificar se Hanon copiou alguns dos exercícios de outros métodos – prática comum na época, antes das modernas leis de direitos autorais – ou se inconscientemente imitou outros compositores. Fato é que, de qualquer modo, as semelhanças entre o seu método e os publicados anteriormente sugerem, no mínimo, a familiaridade com a literatura pedagógica disponível à época. Os segredos Estudantes de piano de todo o mundo conhecem (e odeiam) os exercícios técnicos propostos por Hanon. Embora o método tenha seus detratores, há quem o defenda apaixonadamente. Tanto Sergei Rachmaninoff quanto Josef Lhévinne, ambos pianistas e professores de renome em seu tempo, afirmavam que a chave do sucesso da escola russa de piano e do grande número de virtuoses provenientes daquela região é o estudo do Hanon. Utilizado durante muito tempo nos conservatórios russos, o método devia ser decorado pelos estudantes e executado em todas as tonalidades e em altas velocidades. Eis aí um dos “segredos” do método. Embora na introdução do livro o próprio autor aconselhe o estudo dos exercícios em todas as tonalidades, poucos são os professores que sugerem essa variação aos alunos, fato plenamente compreensível, mas não adequado.

Encore: C:UsersNiltonDesktopHANON.eHanon – O Pianista Virtuoso é indicado para a fase intermediária da formação técnica de um estudante de piano, mas também pode ser usado para qualquer instrumento de teclas e, até mesmo, para o estudo da pedaleira no órgão. Podemos situá-lo entre A Dozen A Day, de Edna Mae Burnam, por exemplo, e os Exercícios Técnicos Diários, de Oscar Beringer. Não defenderemos aqui nenhuma escola técnica, mas a adoção de uma escola técnica, qualquer que seja. Ao lado dos exercícios específicos de cada uma, o estudo do Hanon com a aplicação de algumas variantes torna se extremamente eficaz, tanto para a independência dos dedos quanto para a velocidade. Além disso, familiariza o estudante tanto com a sonoridade quanto com o desenho melódico das figuras, o que desenvolve a leitura musical. Mas para que seja realmente proveitoso, seguem algumas sugestões para o estudo da primeira parte do método, que você pode discutir com seu professor:

1) Estude lentamente (mesmo!) a fórmula apresentada em cada exercício. Verifique a
posição da mão e dos dedos. Corrija qualquer desvio e de maneira alguma permita que o lado externo da mão “descanse” sobre as teclas ou o pulso sobre a régua inferior do teclado. Decore a mecânica da fórmula e toque o exercício até o fim, lentamente;

2) Com o uso do metrônomo em 60 BPM, toque o exercício novamente. A qualquer sinal de dor, em qualquer parte do corpo, pare. A dor é sinal de que algo está errado, seja postura, posição das mãos e dos dedos ou excesso de força;

3) Com o metrônomo em 60 BPM, pratique as variações sugeridas a seguir (e outras que seu pofessor sugerir):

Encore: C:UsersNiltonDesktopHANON01Encore: C:UsersNiltonDesktopHANON02Encore: C:UsersNiltonDesktopHANON03Encore: C:UsersNiltonDesktopHANON04Encore: C:UsersNiltonDesktopHANON05Encore: D:TECLAS & AFINSEDIÇÃO 06TÉCEncore: C:UsersNiltonDesktopHANON07Encore: C:UsersNiltonDesktopHANON08

4) Aumente a velocidade do metrônomo para 68 BPM e repita todo o processo: toque o exercício como está escrito e todas as variações sugeridas;

5) Aumente gradativamente a velocidade do metrônomo, a princípio de 8 em 8 BPM (76, 82, 88) e, depois de 4 em 4 BPM (92, 96, 100, 104 etc) e repita o processo;

6) Se não conseguir realizar o exercício em determinada velocidade – seja por dor, cansaço ou erros de dedilhado -, pare e descanse. Afinal, não é necessário – nem prudente – atingir altas velocidades no primeiro dia de estudo;

7) Ao retomar o estudo no dia seguinte, inicie todo o processo, a 60 BPM, aumentando gradativamente a velocidade. Você perceberá que a cada dia você conseguirá atingir maiores velocidades, sem dor ou cansaço. Podemos fazer uma analogia com um corredor de longas distâncias. Para correr uma maratona, ele deve começar com o primeiro passo até que consiga completar o percurso. Não vale começar do quilômetro 40!

8) Depois de dominar o estudo em Do maior, que tal tentar em outros tons? Comece com Sol maior (um sustenido) ou Fá maior (um bemol) e repita todo o processo. Aumente o número de alterações até dominar todas as tonalidades;

9) Vá para o exercício número 2 e repita todo o processo. A técnica, a independência dos dedos e a agilidade são construídas passo a passo. Afinal, o objetivo é aprimorar a técnica e não “passar” de exercício;

10) Quer tornar o estudo ainda mais interessante? Acione uma bateria eletrônica em vez do metrônomo. Mas, cuidado para não perder a precisão!

Seguindo esse pequeno roteiro, você perceberá que suas mãos se amoldarão ao formato do teclado, sua mente pensará em tonalidades de forma mais simplificada e você desenvolverá sua técnica de maneira paulatina e eficiente. Bom estudo!

 

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