Porque “Jass”

Músicos e História da Música

Porque “Jass”

Porque “Jass”

“Jass” e “Jazz” são duas grafias igualmente corretas para o mesmo termo: a diferença vem da própria história do gênero, quando músicos sindicalizados de Chicago passaram a chamar a nova música de “Jass” — gíria dos negros americanos da época para variações da relação sexual — de forma pejorativa.

De onde vem o nome “Jass”?

Ao ver um duplo “S” em vez do duplo “Z” no nome do gênero, muitos pensariam se tratar de um erro de grafia — mas não é o caso: “Jass” também é uma grafia correta, ligada à própria origem do termo. Segundo Andres Francis, em seu livro “Jazz”, a palavra surgiu quando as primeiras orquestras chegaram a Chicago.

Os músicos sindicalizados da cidade fizeram o possível para impedir que os novos “colegas” se instalassem e trataram sua música “suja” por vários nomes, particularmente “Jass” ou “Jazz music” — na gíria dos negros americanos da época, expressão que designava variações da relação sexual. Segundo Francis, “a palavra intrigou o público a tal ponto que o primeiro a utilizá-la como slogan publicitário (o músico branco Tom Brown), atraiu a curiosidade das multidões”. Essa colocação, porém, pode ser exagerada.

Por que os músicos evitavam pronunciar “Jass”?

As primeiras manifestações de Jazz (ou Jass) ocorreram por volta da década de 1910, quando o termo não causaria furor, mas sim horror e pânico. O pianista Eubie Blake, que morreu centenário, explicou: “Nunca pronuncio a palavra ‘Jass’ diante de uma dama; é uma palavra muito suja. Minha música é o ragtime”.

Segundo François Billard, em “No Mundo do Jazz”, a divulgação da palavra aconteceu em parte com o lançamento, em 1916 ou 1917, do primeiro disco da Original Dixieland Jass Band (ODJB), e se tornou um achado comercial: “(...) adivinha-se que ela não descreve uma música e não pode traduzir um fenômeno musical bem anterior, do qual encontramos vestígios desde o início do século (inclusive na forma de discos)”.

https://www.youtube.com/watch?v=mN89vHZ414s

Eubie Blake também contou que, quando tocava em casa, sua mãe — muito religiosa — entrou de repente e gritou: “Não admito ragtime em minha casa!”, pois na época o ragtime era associado a lugares mal afamados, bordéis e salas de fundo de bares. Um novo estilo de dança se infiltrava no universo popular da época e precisava de um rótulo, ao lado de outras danças derivadas dos cabarés do Meio-Oeste e, mais tarde, dos salões do Harlem:

  • Foxtrot
  • Black bottom
  • Charleston
  • Lindy hop
  • Big apple
  • Trucking

Como o preconceito contra o Jazz se manifestou?

Francis Newton, em “História Social do Jazz”, explica que o termo Jazz (ou Jass, Jas ou Jaz) passou a ser usado como rótulo genérico para a nova música de dança, já que poucos sabiam tratar-se de gíria africana para relação sexual. Os moralistas declararam guerra imediata ao estilo.

“(...) O interessante a respeito dessa moda é que, desde o início, ela não era vista simplesmente como mais uma - e talvez monstruosamente deplorável - onda de música pop, mas como um símbolo, um movimento. Os moralistas, é claro, declararam guerra a ela imediatamente, mostrando, como sempre, uma fantástica incapacidade de resolver se sua objeção estava na associação com o submundo ou com as classes inferiores.”

O autor cita ainda um desabafo publicado em 20 de junho de 1918 no jornal The Times-Picayune, de Nova Orleans: “Por que, então, a música de Jass e a banda de Jass? Pergunte-se, igualmente, o porquê da novela barata. Tudo é manifestação de um traço inferior do gosto humano, que ainda não foi consertado pelo processo de civilização. Na verdade, poderíamos ir mais longe e dizer que a música de Jass é história indecente, sincopada e contrapontuada. Como as anedotas impróprias, ela também era ouvida com rubor, atrás de portas e cortinas fechadas, mas, como todos os vícios, se tornou mais ousada, até penetrar nos lugares decentes, onde também foi tolerada por causa de sua estranheza... Dá um prazer sensual maior do que a valsa vienense ou do que o refinado sentimento e a emoção respeitosa de um minueto do século XVIII. Em matéria de Jass, Nova Orleans está especialmente interessada, já que foi amplamente sugerido que essa forma particular de vício musical nasceu nesta cidade... Não reconhecemos a honra da paternidade, porém diante de tal história sendo propagada, caberá a nós sermos os últimos a aceitar tal atrocidade em meio à sociedade educada?”

“O execrável Jazz tem de desaparecer!”, clamava o Ladies’ Home Journal em 1921. O clérigo Stephen T. Wise assegurava que “quando a América recuperar sua alma, o Jazz desaparecerá - não antes. Vale dizer que será relegado aos sombrios locais de onde veio, para secar sem pena (...)”.

Como o Jazz conquistou reconhecimento?

Apesar da hostilidade, o Jazz não desapareceu e buscou sair do gueto. Francis Newton relata que o concerto de Paul Whiteman, em 1924, destinado a estabelecer as credenciais acadêmicas para o “Jazz sinfônico”, mereceria desdém dos músicos mais puristas, mas não houve oposição, pois a intenção era levar o Jazz ao palco de concertos.

Foi nessa ocasião que “Rhapsody in Blue”, de Gershwin, foi apresentada pela primeira vez — um exemplo respeitável de música light influenciada pelo Jazz. O gênero ansiava por reconhecimento maior do que o de mera música de dança desde que havia surgido.

Hoje o Jazz é reconhecido (o que não significa que seja compreendido), é universal e não mais restrito aos “sombrios locais de onde veio”, distanciando-se do significado da velha gíria africana Jass (Alex Saba).

https://www.youtube.com/watch?v=ZvQIobg0BwU

Se você deseja ler outros artigos como este, acesse a revista digital gratuita Teclas & Afins em www.teclaseafins.com.br

Perguntas frequentes sobre a origem do Jazz

“Jass” é um erro de grafia para “Jazz”?

Não. Embora pareça estranho ver um duplo “S” em vez do duplo “Z”, “Jass” é uma grafia correta, ligada à origem histórica do termo nos Estados Unidos.

O que significava a palavra “Jass” na gíria afro-americana?

Segundo Francis Newton, o termo era gíria africana usada para designar relação sexual, e poucos sabiam desse significado quando a palavra passou a rotular o novo estilo musical.

Quem foi Tom Brown na história do termo “Jass”?

De acordo com Andres Francis, Tom Brown foi o músico branco que primeiro utilizou a palavra como slogan publicitário, o que atraiu a curiosidade das multidões — embora essa afirmação de Francis possa ser exagerada.

Por que Eubie Blake evitava dizer a palavra “Jass”?

Eubie Blake afirmava nunca pronunciar “Jass” diante de uma dama por considerá-la “uma palavra muito suja”, preferindo chamar sua própria música de ragtime.

Como os moralistas reagiram ao Jazz?

Jornais como o Ladies’ Home Journal e figuras como o clérigo Stephen T. Wise condenaram publicamente o Jazz, associando-o a locais mal afamados e pedindo seu desaparecimento.

O que aconteceu no concerto de Paul Whiteman em 1924?

O concerto buscou estabelecer credenciais acadêmicas para o “Jazz sinfônico” e foi nessa ocasião que “Rhapsody in Blue”, de Gershwin, foi apresentada pela primeira vez.

Este conteúdo foi útil?
Leia também

Instrumentos relacionados a este conteúdo

Deixe seu comentário
Seu e-mail não será publicado
Deixe seu comentário
[Post 2k] Quais as diferenças do baixo e contrabaixo: guia completo! - Blog TeclaCenter
8 de outubro de 2020
[…] elétrica: o emergente rock’n’roll. Além disso, essa versão dominou as versões mais novas do jazz também, principalmente a partir dos anos […]
Reply
Receba nossas novidades chevron-down