Jether Garotti Jr.: de acompanhador a maestro arranjador

Músicos e História da Música

Jether Garotti Jr.: de acompanhador a maestro arranjador

Jether Garotti Jr.: de acompanhador a maestro arranjador

Jether Garotti Jr. é pianista, tecladista, clarinetista, arranjador, orquestrador e maestro, formado em clarinete erudito pela Escola de Comunicações e Artes da USP e mestre em música popular brasileira pela Unicamp; ele é maestro arranjador da cantora Zizi Possi há 24 anos, com participação em 10 álbuns dela, e arranjador residente da Orquestra Sinfônica de Heliópolis desde 2006.

Quem é Jether Garotti Jr.?

Pianista, tecladista, clarinetista, vocalista, soundesigner, arranjador, orquestrador, produtor musical e compositor de trilhas sonoras: esse é Jether Garotti Jr., graduado em clarinete erudito pela Escola de Comunicações e Artes da USP e mestre em música popular brasileira pela Unicamp. Ele tem em seu portfólio a parceria de 24 anos com a cantora Zizi Possi, de quem é maestro arranjador, tendo participado de 10 álbuns dela, incluindo os cultuados Per Amore, Pra Inglês ver...e ouvir e Puro Prazer.

Criador e diretor musical de trilhas sonoras para dança, teatro, musicais - como Emoções Baratas e Mucho Corazon - e filmes publicitários para TV e rádio, participou como instrumentista, arranjador e assistente de direção musical em projetos com:

  • Milton Nascimento
  • Nana Vasconcelos
  • Toquinho
  • Jane Duboc
  • João Bosco
  • Alcione
  • Ivan Lins
  • Edu Lobo
  • Ana Carolina
  • Luiza Possi
  • Fafá de Belem
  • Eduardo Dusek
  • Elizete Cardoso
  • Ney Matogrosso
  • Gonzaguinha
  • Flávio Venturini
  • Leila Pinheiro
  • Paula Lima
  • Rosa Maria
  • Dominguinhos
  • Paulinho da Viola
  • Toninho Ferragutti
  • Paulo Moska
  • Moraes Moreira
  • Cadu de Andade
  • Luzia Dvorek

Paralelamente, é arranjador residente da Orquestra Sinfônica de Heliópolis, que conta com direção artística do maestro Isaak Karabtchevsky e é administrada pelo Instituto Baccarelli.

Como foi a infância musical de Jether Garotti Jr.?

Jether começou no piano por uma questão quase psicológica: aos seis anos, era o garoto mais alto e mais gordinho da turma, mas muito tímido, e reagia às brincadeiras da molecada batendo e mordendo. Isso quase o levou a uma classe especial na escola.

Para a psicóloga da escola eu tinha algum problema: "está machucando as crianças. Vamos fazer um estudo psicológico porque provavelmente ele vai precisar ir para a classe especial". A sala especial tinha pessoas com síndrome de Down, deficiências etc. Eu estava quase indo para lá. Antes que eu fosse, uma professora de música olhou pra mim e disse que queria tentar uma última coisa. Me colocou na frente do piano, começou a ver posição de mão, pediu licença a todos, fechou a porta e foi se ambientando comigo, sentindo como eu respondia aos estímulos. Depois, abriu a porta e deu seu veredito: "esse menino não tem nada. Deixem ele comigo que vou cuidar dele". E foi assim que conheci Sophia Helena Freitas Guimarães de Oliveira, uma grande professora que fazia trabalhos que, até hoje, fazem parte da memória de todos que passaram por ela, os que seguiram como músicos e os que não seguiram, e que fez com que nós aprendêssemos música de forma não didática, mas com o coração.

Como começou a carreira profissional de Jether Garotti Jr.?

Ela colocava peças difíceis, aprimorava a interpretação, os fraseados, desde os seis ou sete anos. Dois anos depois, ele já tocava piano, violão e flauta-doce, desenvolvendo os primeiros passos musicais: teoria, valores, solfejo. A carreira profissional começou aos 13 anos.

Dois anos depois, eu já estava tocando piano, violão e flauta-doce e desenvolvendo todos os primeiros passos musicais, a teoria musical, valores, solfejo. Em 1979, entrei no conjunto de flautas-doce Guiomar Novaes, que ela administrava. Éramos quase 30 flautas e, em 1981, ganhamos o prêmio da APCA de melhor grupo instrumental erudito do ano. Foi praticamente ali que começou minha carreira profissional, aos 13 anos, quando recebi meu primeiro cachê.

Como o domínio de instrumentos melódicos e harmônicos ajuda no arranjo?

Segundo Jether, lidar com flauta-doce, violão e piano desde cedo deu a ele uma boa ideia do universo que poderia usar em arranjo, ao entender a relação entre instrumentos melódicos e harmônicos.

Porque, quando você lida com instrumentos melódicos e harmônicos, você percebe o foco de cada um e o que ele precisa ouvir do outro, ou seja: o que eu, como instrumento harmônico, preciso prestar atenção no que o melódico faz, e descobrir como dar suporte, como dar o melhor embasamento harmônico para que ele faça a parte dele com segurança. E, como instrumento melódico, o que precisa do instrumento harmônico, onde o que ele está fazendo se encaixa na harmonia que o outro está apresentando. É uma via de duas mãos. E, se você entender isso, sabe qual a necessidade e a importância de cada um no contexto.

Por que Jether Garotti Jr. deixou o piano erudito?

Jether rompeu com sua primeira professora porque ela queria mantê-lo na linha do piano erudito, mas ele não queria ser concertista - queria apenas tocar música popular no piano, algo claro desde o início.

Então, aos 18 anos, um pouco antes de entrar na USP, fui a um conservatório de música popular, na Pompeia, e tive aulas com a Cecília Gorini. Ela me mostrou o que são cifras, acompanhamentos populares, como se trata a música popular, como se resolve essa transcrição no piano, baião, samba, xote, toda essa gama de ritmos brasileiros. Isso foi em 1981. Quando vi uma transcrição do "Curumim", do César Camargo Mariano, decidi: é isso que eu gostaria de estudar. A partir daí, ele sempre virou referência para mim, pela maneira de acompanhar, de preencher, de comentar pianisticamente. Passei pelo CLAM e pelo Espaço Musical do (Ricardo) Breim.

O que foi o Festival de Prados na formação de Jether Garotti Jr.?

Depois de deixar o piano fora da USP, Jether foi para o clarinete, mas seguiu fazendo coral, regência de coral e arranjo. No Festival de Prados, teve seu primeiro contato prático com arranjos "de hoje para amanhã".

Mexíamos muito com arranjos "de hoje para amanhã", uma forma funcional de arranjo, que era, basicamente, o que acontecia na música barroca mineira, ou seja: "alguém importante virá amanhã à tarde e precisamos ter uma música na igreja". O que as pessoas faziam? Compunham "de hoje para amanhã", ensaiavam e tocavam. Lá comecei a experimentar arranjos modestos para sopros, para coro, para cordas. O maestro Adhemar (Campos Filho) ensinava instrumentação de bandas, uma das matérias do festival. Foi quando comecei a mexer com um pouco de instrumentação, textura e fraseado.

Como Jether Garotti Jr. começou sua carreira de arranjador?

Aconteceu quando ele entrou nos Heartbreakers, em 1987, grupo cujo repertório principal era Duke Ellington, com mais de 190 transcrições dos arranjos originais. Foi ali que passou a trabalhar com softwares em vez de papel e caneta.

E aquela formação era basicamente um grupo que se chamava Nouvelle Cuisine. Luca Raele, Maurício (Tagliari), Fernando (Carlos Fernando Nogueira), eram a cozinha do Heartbreakers. Havia o Luiz Macedo, que era o arranjador principal, o (Mário) Caribé e o Matias (Capovilla), que também faziam arranjos. Então comecei a entrar em contato com isso, não através do papel e da caneta, mas do software, diretamente do teclado, como controlador MIDI IN. Ali era o canal de entrada, e o computador era o papel. Quem tocava piano e clarinete era o Luca Raele. Quando iam sair para fazer o primeiro disco-solo veio o convite dele: "Jether, você é o único cara que eu conheço que pode se dar bem, porque as partituras são todas para piano e clarinete, ou seja, intercalando um e outro". Foi quando comecei a me desligar do clarinete erudito, das sinfônicas jovens, do concerto, para entrar definitivamente na música popular. Não faço parte da geração de arranjo de papel e caneta, mas faço parte da geração seguinte, que é a do computador, do sequencer, da notação gráfica, da impressora.

Piano acústico ou digital: qual a diferença de som?

O som acústico é imbatível e insubstituível: numa orquestra sinfônica, só o piano acústico completa o corpo harmônico do contexto. Mas em outros contextos, como um show ao vivo na praia, o instrumento sofre com interferências do ambiente.

AspectoPiano acústicoPiano digital
Timbre em orquestraCompleta o corpo harmônico do contexto sinfônicoNão substitui o corpo harmônico do acústico nesse contexto
Show ao vivo (ex: praia)Vira um "móvel enorme" que precisa ser tratado para não vazar som nem sofrer interferência; timbre fica "magrelo"Sai com sinal LR em cabo estéreo, completamente limpo, direto para a mesa
Quando escolherEm sala tratada ou de concerto, para realçar as qualidades do timbreQuando é preciso manter as condições e a qualidade do timbre em qualquer lugar

Dependendo do lugar onde se vai fazer o trabalho, você pode optar por um instrumento digital para manter as condições e a qualidade daquele timbre, ou por um instrumento acústico, para que as qualidades do timbre sejam realçadas. Cada um no seu lugar - se você optar sempre pelo acústico, corre o risco de, em certas circunstâncias, não ter a mesma qualidade, e vice-versa.

Há diferença no toque entre piano acústico e digital?

Sim: no acústico, um martelo bate em uma corda; no piano digital, um teclado aciona um contato. Cada um exige que o músico descubra sua própria sensibilidade e range de interpretação.

No piano digital, com contato, o músico tem que encontrar qual é o range de interpretação, diferente da resposta do acústico. Mas no digital, ele pode adicionar timbres, pads, atmosferas, que, com o acústico, seria necessário fazer em uma pós-produção ou um overdubbing de gravação. Um não supera o outro, porque são dois tipos de tratamento completamente distintos que, por si só, são completos no contexto em que estão: o piano acústico em uma sala tratada, ou de concerto, e o digital onde for preciso sair com LR completamente preservado.

Como Jether Garotti Jr. mantém a parceria de 24 anos com Zizi Possi?

Ele mantém a parceria entendendo as necessidades dela como artista e estabelecendo comunicação e respeito mútuo, entendendo o que é necessário e o que não é na música - um papel de sideman que realiza as ideias da artista.

Esse movimento acaba desembocando em se tornar um sideman. Ou seja, aquele que provém. "Vamos fazer isso? Vamos fazer aquilo? Precisamos fazer uma extensão harmônica aqui, o que você acha? Vamos fazer um arranjo, pensar em uma concepção?". Em 2001, me tornei maestro dela e assumi toda a concepção. A direção musical sempre é dela. Mas penso como realizar, como tornar palpável a concepção dela em matéria de música. Sempre fiz esse papel de realizar as ideias.

Qual o trabalho de Jether Garotti Jr. na Orquestra Sinfônica de Heliópolis?

Ele é o principal responsável pela concepção e os arranjos dos projetos de música popular da orquestra desde que foi chamado, em 2006, como arranjador residente, adaptando o repertório de artistas convidados para formação sinfônica.

Por lá já passaram Ivan Lins, João Bosco, Paula Lima, a própria Zizi Possi, Moraes Moreira, Guilherme Arantes, Lenine, vários artistas. Toda vez que eles trazem o repertório deles, meu trabalho é adaptar aquilo para formação especificamente sinfônica, sem instrumentos populares. A proposta é justamente fazer que o corpo sinfônico soe para a música popular. Muitas vezes, figuras ritmadas brasileiras, síncopas e suingues são um desafio para os músicos, que têm formação rítmica mais voltada para a visão europeia do instrumento. Mas eles não se acomodam: é muito interessante vê-los desligarem uma chave e ligarem outra para entenderem a música de forma diferente.

Jether Garotti Jr. faz projetos autorais?

Não. Ele também produz jingles e trilhas, mas prefere musicar imagens e criar trilhas para movimento e dança a fazer música autoral ou improvisar.

Não sou grande improvisador e não gosto de improvisar. Já tentei ser jazzista, mas percebi que não é a minha praia. Minha praia é fazer música para alguma coisa, não música por música, para mim. Tanto que até hoje não me interessei em fazer projetos autorais. Gosto mais de fazer música para a específica necessidade que se apresenta, ou seja, torná-la útil.

Qual é o perfil musical de Jether Garotti Jr.?

  • Instrumento preferido: gostaria de aprender a tocar bateria
  • Instrumento inesquecível: a orquestra sinfônica
  • Influências: Herbie Hancock, Cesar Camargo Mariano, Egberto Gismonti, Gilson Peranzzetta, Benny Goodman, Marcus Miller
  • Disco preferido: As Falls Wichita, So Falls Wichita Falls, de Pat Metheny, e Saudades do Brasil, de Naná Vasconcelos
  • Música preferida: "Close To Home", de Lyle Mays
  • Trabalho inesquecível: Valsa Brasileira, com Zizi Possi
  • Sonho de consumo: um HD superpequeno em que coubessem 74 mil terabytes de sons
  • Descoberta: fazer música para o outro, não para você mesmo
  • O que anda ouvindo: de tudo
  • O que anda lendo: tratados de orquestração
  • Ídolo: Professora Sophia Helena Freitas Guimarães de Oliveira

Perguntas frequentes sobre Jether Garotti Jr.

Há quantos anos Jether Garotti Jr. é parceiro musical de Zizi Possi?

Jether Garotti Jr. mantém uma parceria de 24 anos com a cantora Zizi Possi, sendo seu maestro arranjador e tendo participado de 10 álbuns dela, incluindo Per Amore, Pra Inglês ver...e ouvir e Puro Prazer. Ele se tornou maestro da cantora em 2001, assumindo toda a concepção musical dos projetos, embora a direção musical continue sendo dela.

Onde Jether Garotti Jr. estudou música?

Ele é graduado em clarinete erudito pela Escola de Comunicações e Artes da USP e mestre em música popular brasileira pela Unicamp. Antes disso, estudou piano popular em um conservatório na Pompeia com a professora Cecília Gorini, a partir dos 18 anos.

O que é a Orquestra Sinfônica de Heliópolis, onde Jether Garotti Jr. atua?

É uma orquestra com direção artística do maestro Isaak Karabtchevsky, administrada pelo Instituto Baccarelli. Jether Garotti Jr. foi chamado em 2006 como arranjador residente e é responsável pela concepção e os arranjos dos projetos de música popular da orquestra, que já recebeu artistas como Ivan Lins, João Bosco, Paula Lima, Zizi Possi, Moraes Moreira, Guilherme Arantes e Lenine.

Qual a diferença entre piano acústico e piano digital, segundo Jether Garotti Jr.?

Segundo ele, o piano acústico tem um timbre imbatível e insubstituível, mas em ambientes externos como um show na praia pode sofrer interferências e soar com um timbre mais fraco. Já o piano digital sai com sinal limpo em cabo estéreo direto para a mesa de som, mantendo a qualidade do timbre em qualquer ambiente.

Como Jether Garotti Jr. começou a trabalhar como arranjador?

Ele começou ao entrar no grupo Heartbreakers em 1987, cujo repertório principal era baseado em Duke Ellington, com mais de 190 transcrições. Foi ali que passou a trabalhar com softwares de notação e MIDI em vez de papel e caneta, ao ser convidado por Luca Raele para o primeiro disco-solo dele.

Este conteúdo foi útil?
Leia também

Instrumentos relacionados a este conteúdo

Deixe seu comentário
Seu e-mail não será publicado
Deixe seu comentário
Silvio Francisco
28 de novembro de 2015
Jether é gênio !!!! Fui Lighting Designer da Zizi Possi a uns 20 anos atrás e sempre fui fã desse cara, com o swing próprio dele, não tem igual.
Reply
Receba nossas novidades chevron-down