Profissão músico: negociando seu trabalho

Profissão músico: negociando seu trabalho


O músico deve colocar-se na posição de profissional liberal e ter atitudes mais sérias em relação à forma como negocia seu trabalho

Infelizmente, a maioria das negociações músico/empregador no Brasil é muito informal. Elas não garantem ao profissional nenhuma segurança nem respeitam as leis trabalhistas. Mesmo prestando um serviço de poucas horas em apenas um dia, o músico não deixa de ter seu contrato caracterizado como temporário. Calotes, maus-tratos, grosseria e indiferença estão entre as coisas que, às vezes, fazem parte de nossas atividades. O Brasil é um dos poucos países onde não há uma cadeira nos cursos de música que aborde music business.

Pela sua própria natureza, o músico é um artista. Por isso, alguns poucos podem contar com empresários, vendedores de shows e assessores. Mas devemos nos colocar ao lado de todos os outros que atuam como  profissionais liberais.

 

Marketing

Todos os profissionais liberais dependem muito de seu marketing e de suas relações. Os contatos informais são como correntes. Então quanto mais pessoas souberem o que você faz como músico, em que áreas atua (estúdio, bares ou eventos) e que estilo toca, maiores serão suas chances de uma indicação. Existe sempre alguém casando, abrindo um bar, realizando um evento ou produzindo um CD independente. Muitas vezes, essas pessoas podem estar à sua procura. Nesse momento, você poderá receber uma indicação por conta de um de seus contatos informais.

Em tempos de redes sociais, YouTube, SoundCloud e tantas outras formas de contato com o público, no entanto, um trabalho direcionado, um videoclipe bem-feito e muitas postagens podem garantir uma legião de fãs e convites para qualquer tipo de trabalho musical!

Em outros casos, vamos nos deparar com situações que exigirão mais apresentação e marketing. Proprietários de casas noturnas, bares, restaurantes, agências de eventos/publicidade e estúdios de gravação vão querer saber bem mais sobre você. Nessa hora, um release bem-feito e um CD ou DVD demo irão fazer a diferença na maneira como o contratante irá olhar para você.

 

Release

Com exceção de músicos, outros contratantes não irão se interessar muito por nomes de professores e escolas. Tenha um currículo completo à parte do release e, quando pedido, apresente-o. A melhor característica desse texto de apresentação é a objetividade. Se possível, tudo pode e deve ser falado em uma única folha. Um currículo abreviado em letras menores pode ser incluído. O mais importante é expor o que você faz de forma leve e elegante. Use material de boa qualidade, escolha fontes e, se possível, peça a algum amigo da área de comunicação para ajudá-lo com o texto e o layout. Pode também ter dois tipos de material: um para ser impresso e um para a Internet. Isso, porém, requer um trabalho mais elaborado. Até porque fotos em material impresso oneram o custo.

Use e abuse de perfis em redes sociais! Deixe que elas façam o trabalho por você!

 

Demo

O nome já diz: uma pequena demonstração é o esperado. As pessoas não vão ouvir 12 faixas de um CD com músicas de cinco a oito minutos cada. Escolha poucas músicas, buscando aquelas que prenderão a atenção desse tipo de ouvinte e queime uma mídia. Se as canções forem muito compridas, use fade out para encurtá-las. Uma demo com cinco músicas de três minutos cada é suficiente.

O mais importante, porém, é a visibilidade. Nos tempos atuais, qualquer celular pode fazer um vídeo de qualidade suficiente para mostrar seu trabalho. Se quiser investir um pouco mais, vale a pena produzir um videoclipe. Alguns estúdios oferecem esse combo: gravação de áudio e vídeo com finalização.

Divulgue na internet e tente conseguir seguidores. Atualmente, eles são preciosos até mesmo para grandes empresas!

 

À procura de um trabalho

Se você vai sondar um lugar novo, escolha os dias de menor movimento para ver como está a casa. Provavelmente, se alguém já estiver tocando lá, o contratante não irá lhe oferecer as sextas e os sábados. Se acaso resolver conversar com alguém, que seja o proprietário. Se ele não estiver, pergunte quando irá encontrá-lo, anote o nome e entre em contato ou apareça de novo no horário apropriado. Somente em última hipótese deixe seu material com gerentes ou maitres. A maioria deles não irá dar a devida atenção ao seu empenho. O mesmo se aplica a escolas e empresas. Evite secretárias, anote o horário certo para encontrar a pessoa competente, deixe um cartão e volte outra vez.

 

Negociações

Infelizmente, a maioria dos contratantes, sejam eles donos de restaurantes ou bares, não irá colocar nada no papel. A negociação é informal e não garante que você receberá o combinado na data acertada. Assim, como houve esforço para ter uma boa credibilidade, é importante esclarecer o que você espera. No caso de bares e restaurantes, o acordo é normalmente verbal. Alguns pontos, porém, podem ser negociados como, por exemplo, a permanência mínima de um mês, podendo esta ser renovada a cada novo período. Se for trabalhar sozinho várias vezes por semana, explique que algumas vezes ocorrerá de você precisar enviar um substituto. Quem trabalha com músicos está acostumado com isso. Outros, entretanto, necessitam dessa pequena explicação. Ainda falando de bares e restaurantes, eventos que ocorram no local devem ser tratados de forma diferenciada quanto ao pagamento. Alimentação, consumação, vestimenta, recibos e horários também devem ser discutidos. Não esqueça nenhum item dos citados. Se a remuneração vier com cheques de terceiros, exija que o caixa ou gerente coloque o nome da casa. Recibos costumam ter duas vias.

 

Eventos e apresentações esporádicas

No caso de eventos empresariais, os contratantes são bem mais profissionais. Deixam sempre uma pessoa encarregada pela coordenação e pagamento dessa área. Normalmente. uma nota é exigida. Mas, ao mesmo tempo, pode-se solicitar uma confirmação do evento via fax ou mesmo fazer um pequeno contrato. Em caso de orçamentos, verifique se o contratante possui equipamento no local. Em matéria de feiras e eventos de médio e grande porte, a aparelhagem é orçada separadamente. Pois você está sendo contratado para tocar e não ser DJ ou emprestar microfones e caixas de som para outras finalidades. Exija um prazo para a confirmação do evento. Em termos de feiras, confirme o horário para montagem – elas possuem organização severa com horários para entrada de equipamentos.

 

Gravações

Se você vai produzir alguém, combine a forma de pagamento. Se tiver de fazer uma pré-produção e isso for demorar, um adiantamento é negociável. Contratos também podem ser feitos. Só entregue o material pronto mediante o dinheiro. Afinal, é muito fácil tomar calotes nessa situação. Se for contratado para uma sessão de gravação, verifique se o pagamento é por hora ou faixa. Em caso de jingles, o preço é estabelecido pela produtora contratante. E é costume ser pago após o faturamento, normalmente de 30 dias.

 

Aulas

Cada escola tem uma forma de negociação e pagamento. Infelizmente, alguns poucos donos de escolas repassam para o professor calotes tomados por alunos. Essa política deve ser discutida quando se procura emprego desse tipo. Férias são obrigatórias e, em alguns casos, você poderá ter carteira assinada. Aulas particulares devem ser negociadas com bom senso. É possível cobrar individualmente por aula, o mês adiantado ou pagamento a cada quatro aulas.

 

maxresdefaultO músico como profissional

Se todos os músicos começarem a exigir mais segurança na hora de serem contratados, seja qual for o serviço, os contratantes deixarão de abusar da informalidade e, com o tempo, isso se tornará praxe. Ainda existe o problema de inúmeros músicos que, por medo, aviltam de forma vergonhosa o  mercado. Em muitos lugares, profissionais de outras áreas menos qualificados ganham mais e têm  seus direitos respeitados. Isso só ajuda a reforçar a posição de marginalidade e pobreza que muitos tecem em relação aos músicos. Vale lembrar que todas as classes profissionais só conseguiram vitórias com união e organização. Mesmo que esteja começando na carreira, tente lembrar que, no futuro, você dependerá também dessas prerrogativas. (Alexandre Porto, que atua como professor, músico em eventos, estúdios e gravações). 

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