Mú Carvalho é tecladista, arranjador, produtor, pintor e enólogo que se consagrou como cofundador de A Cor do Som, ao lado do irmão, o baixista Dadi, e hoje atua como compositor de trilhas sonoras para novelas da TV Globo.
Quem é Mú Carvalho?
Maurício Magalhães de Carvalho, o Mú, é tecladista, arranjador, produtor, pintor e enólogo, entre muitas outras atividades. Ele fez sucesso na juventude como músico da banda A Cor do Som e mantém, na maturidade, trabalho constante como compositor de trilhas sonoras para novelas da TV Globo.
Além disso, o carioca de Ipanema soma outras atividades:
- Proprietário do selo Boogie Woogie
- Mantém um bistrô
- Produtor de vinhos na Borgonha
- Integrante de confrarias de bons copos
- Cronista em seu próprio blog sob o pseudônimo Alain Gouste
- Jurado de prêmios importantes da mesa brasileira
- Artista plástico, autor das ilustrações do CD Óleo sobre Tela
Essa multiplicidade de aptidões, linguagens, influências e predileções sempre foi marca registrada do músico que, ao lado do irmão, o baixista Dadi, fundou A Cor Do Som, uma das bandas brasileiras de maior sucesso nas décadas de 1970 e 1980.
Como surgiu A Cor do Som?
A Cor do Som misturou ritmos regionais, choro, jazz, erudito, pop e rock em uma explosão musical de cores e sabores, tornando-se, em 1978, o primeiro grupo musical brasileiro a participar do Montreux Jazz Festival, na Suíça.
Como convidado do festival, o grupo apresentou material quase todo inédito, o que rendeu um disco ao vivo. A partir do terceiro trabalho, Frutificar, A Cor Do Som passou a incluir letras e voz, a pedido da gravadora, o que levou a banda a incríveis níveis de popularidade.
Quais são as principais composições de Mú Carvalho?
Como compositor, Mú Carvalho teve seu talento confirmado por hits que se tornaram sucesso nas décadas de 1970 e 1980, além de trilhas para cinema e para novelas e séries de televisão.
Entre os hits estão:
- "Sapato Velho" (com Cláudio Nucci e Paulinho Tapajós)
- "Semente do Amor" (com Moraes Moreira) — uma das músicas mais executadas em 1980
- "Terra do Nunca"
- "Chocolate Com Pimenta" (com Aldir Blanc)
Entre os filmes para os quais compôs trilha estão:
- A Dama do Lotação
- Os Sete Gatinhos
- Navalha na Carne
- O Noviço Rebelde
- Xuxa e os Duendes 2
- Xuxa Popstar
- Sexo, Amor e Traição
Mú também trabalha para a televisão como compositor e produtor musical, assinando trilhas sonoras de séries e novelas como:
- Alma Gêmea
- Chocolate Com Pimenta
- Era Uma Vez
- Sete Pecados
- Um Anjo Caiu do Céu
- O Beijo do Vampiro
- Três Irmãs
- Caras & Bocas
Qual é a discografia solo de Mú Carvalho e seu trabalho como sideman?
O primeiro álbum-solo de Mú Carvalho foi Meu Continente Encontrado, de 1985, com participação especial de Luiz Eça, Zé Luiz e Egberto Gismonti, que também assinou a produção. O mais recente é Elétrico Nazareth.
Como sideman em performances ao vivo e gravações, Mú trabalhou com artistas como:
- Chico Buarque
- Jorge Benjor
- MPB-4
- Alceu Valença
- Moraes Moreira
- Fernanda Abreu
- Legião Urbana
- Luiz Caldas
- Paulinho Moska
- Gabriel O Pensador
- Marina Lima
- Gilberto Gil
Como produtor, recebeu o CD 15 Diamantes por seu trabalho na coleção Passagens Bíblicas, que vendeu mais de 15 milhões de cópias.
Estúdio Boogie Woogie e a entrevista
Do estúdio Boogie Woogie, que mantém com sua esposa, Ana Zingoni, no Rio de Janeiro, e às voltas com o retorno da Cor do Som para uma série de shows e as gravações de uma nova trilha de novela, Mú Carvalho concedeu a entrevista a seguir.
Como está o retorno de A Cor do Som?
Eu tenho um carinho muito grande pela Cor do Som. É uma relação "muito família", sabe? Quando começamos a tocar juntos, no início de 1977, eu tinha dezenove anos e vinha me dedicando às composições no piano da minha mãe.
Tudo foi dando muito resultado, a gente tocando aquelas músicas e misturando as influências de todos:
- Dadi trazendo o som dos Novos Baianos
- Armandinho com o choro e os frevos nos dedos
- Gustavo vindo do rock progressivo da Bolha
- Ary, que se integrou perfeitamente ao quarteto
Sempre rolou uma química, uma identidade e uma entidade sonora que, apesar do tempo, de cada um ter seguido seu caminho, nada muda. Quando a gente sobe no palco parece que o tempo não existiu. É incrível como, mesmo fora da mídia, a gente resiste muito bem a tudo isso. Temos lotado todos os lugares que tocamos e o feedback da plateia é sempre maravilhoso.
Como foi a formação musical de Mú Carvalho?
Comecei a tocar com quinze anos. Antes, me aventurava nas artes plásticas. Troquei o pincel pelas teclas quando meu pai comprou um novo piano para minha mãe.
Ela sempre tocou, mas ficamos um tempo sem piano por questões financeiras. Logo que as coisas melhoraram um pouco, meu pai comprou o Kemble (piano inglês), no qual compus a maior parte das músicas que gravamos. Esse instrumento hoje está no meu estúdio. Levei para lá no final de 2003, quando comprei meu primeiro piano de cauda, um Yamaha Baby Grand de quarto de cauda.
Cresci ouvindo Ernesto Nazareth, Zequinha de Abreu, Chopin e Beethoven. Minha mãe tocava diariamente e eu ficava de olhos e ouvidos colados. Foi minha primeira escola. Mas eu ouvia aquilo tudo e queria fazer as minhas músicas. A composição sempre foi a minha paixão.
Quem foram os professores de Mú Carvalho depois da Cor do Som?
Ainda na época da Cor, tive uma aproximação com Luis Eça. Não eram exatamente aulas, mas conversava muito com ele, o via tocando, perguntava coisas, muito sem compromisso... Mas foi importante.
Depois daqueles anos de Cor do Som e daquele tempo que trabalhei como tecladista de cantores — mais precisamente em 1994, quando assinei com a TV Globo — comecei a sentir uma grande vontade de voltar a estudar, a me aprofundar mesmo na ciência da música. Procurei o Dario Galanti, um improvisador de jazz, bebop incrível. Tive umas aulas com ele. Foram talvez dez ou um pouco mais.
Depois disso, apareceu o Vittor Santos em minha vida. O conheci gravando um naipe de sopros para minha primeira novela, em 1996. Ficamos muito amigos. O Vittor, além de trombonista espetacular — ele tem um som lindo — é uma autoridade no assunto música. Deu aulas para músicos que estudaram na Berklee, como Leo Gandelman e Ricardo Silveira. Muita gente procura por ele para estudar.
Fiquei cinco anos e me formei com ele. Posso dizer, seguramente, que o Vittor Santos é o meu curso superior, a faculdade que fiquei devendo para mim mesmo, pois abandonei o estudo acadêmico no vestibular — na época, eu já trabalhava com Jorge Ben e não parei mais.
Como o modalismo e a rearmonização mudaram a forma de compor de Mú Carvalho?
Meu olhar para a música mudou muito. Com o trabalho de música para dramaturgia — cinema e TV — percebi, ouvindo muitos compositores de música de cinema, que a música modal reina, diferentemente da música do mercado fonográfico, em que mais de 90% é tonal.
Procurei o Vittor para entender o modalismo e, também, para melhorar a minha "caneta" para orquestra. O que aconteceu é que o modalismo em si foi quase um detalhe, porque o sistema tonal é muito mais complexo e foi nisso que minha cabeça mudou. As técnicas de rearmonização me pegaram de surpresa. Eu não sabia o quanto é interessante esse assunto.
Passei a usar nos meus arranjos e o resultado foi surpreendente. Tríades estranhas, dominantes estendidas, estrutura constante, isso é incrível. Foi tipo abrir uma janela e ver toda uma paisagem que eu não conhecia. Passei a escrever para orquestra com segurança e, com a verba que a novela me disponibiliza, posso ter uma orquestra na minha mão, para experimentar tudo isso. Então, o Vittor Santos foi, e ainda é, realmente, muito importante na música que passei a fazer de um tempo para cá e a que farei daqui para frente.
Como começou a carreira de Mú Carvalho aos 16 anos?
No Colégio Rio de Janeiro, onde eu estudava, havia anualmente um festival de música. Foi lá que fiquei amigo, e logo depois parceiro, do Claudio Nucci.
Minha primeira banda foi com essa turma: o Claudio, o Zé Luis, flauta/sax que tocou com Caetano e hoje mora em Nova York, e o Claudinho Infante, grande baterista. O Zé Renato também era da turma e, uns anos depois, se juntou ao Claudio no Boca Livre.
Eu fui convidado para gravar no primeiro disco do Moraes Moreira, que virou meu parceiro também. Daí nasceu a Cor do Som.
Quais foram as influências musicais de Mú Carvalho na juventude?
Antes de tudo isso, lá em casa, o Dadi já era músico profissional. Tinha uma banda que tocava Beatles, The Who e Rolling Stones e isso tudo também me interessava. Não perdia um show dos Novos Baianos. Era maravilhoso o som que rolava.
O Dadi era uma espécie de primeiro ídolo meu, eu o via tocando e tinha certeza de que era isso que eu iria fazer, música seria a minha profissão, sem dúvida. Mas antes do Moraes me convidar para gravar o tal disco, eu já estava tocando com o Jorge Ben, hoje Benjor, com o Dadi e o Gustavo.
Depois do Moraes, com o Armandinho vindo da Bahia, parece que tudo foi um relâmpago. Veio a proposta do Midani, que soube que a gente tinha uma identidade interessante, e assinamos um contrato de três anos com a WEA. E depois mais dois contratos.
Ao mesmo tempo, eu continuava lá, no nosso Kemble, fazendo minhas músicas progressivas, choros e baiões etc. Estudei um pouco de música e técnica de piano com Homero de Magalhães, primo da minha mãe, um grande concertista, e levei um tempo me desenvolvendo e pesquisando, como autodidata mesmo, e ouvindo muito Chick Corea e Keith Jarrett.
O Köln Concert era minha bíblia! Antes, eram as bandas progressivas como Yes, ELP, Focus, Genesis, King Crimson, mas o som dos Mutantes, aqui, também me interessava. E muito!
Quais foram os primeiros teclados de Mú Carvalho?
Meu primeiro instrumento, depois do piano da minha mãe (risos), foi um Fender Rhodes. Em seguida, comprei um Minimoog. Nos shows do Moraes, meu setup era esse: um Rhodes e um Minimoog.
Quando comecei a tocar com a Cor do Som, comprei um Clavinet Hohner D6.
Como Mú Carvalho comprou seu Hammond Porta B em Nova York?
Em 1978, depois de Montreux, fui para Nova York passar uma semana com $4.500 dólares no bolso. Era todo o dinheiro que ganhei com os shows da Cor e do Gil na Europa.
Quando cheguei na 48ª rua, naquelas lojas de instrumentos musicais, na primeira que entrei — acho que era a Alex Music, que não existe mais — dei de cara com um Hammond Porta B, lindo, com a Leslie. Perguntei para o vendedor quanto custava e ele disse $4.200 dólares.
Bem, eu já tinha torrado uns $200 dólares da minha reserva, mas continuei: e para levar para o Brasil? Ele disse que tudo bem, iria de navio e em um mês estaria no porto do Rio de Janeiro. Não tive dúvidas, comprei! E tive que me virar com 100 dólares para comer e dormir uma semana em Nova York.
Para chegar aqui foi um parto, quase três meses. Eu ligava toda semana para a Alex Music e chamava o Sergio — acabo de lembrar o nome do vendedor argentino —, mas, no fim, deu tudo certo.
Quando consegui desembaraçar no porto, foi lindo o momento da chegada em casa. Me lembro como se fosse ontem. Liguei o Hammond e saí tocando uma música que, mais tarde, com a letra do Moraes Moreira, nasceria "Swingue Menina".
Como era o Minimoog customizado de Mú Carvalho?
Com o Moog, era outra viagem. A onda era construir um timbre que não parecesse Chick Corea nem Jan Hammer e, ao mesmo tempo, fosse lindo, tarefa nada fácil. Mas sempre gostei disso nos analógicos, a coisa de não ter preset e cada um ter seu som.
Quando chegaram os polifônicos, foi demais. Eu lembro que os primeiros no mercado eram o Polymoog e o Oberheim, mas o primeiro que comprei, um tempo depois, foi o Prophet 5. Mas o Minimoog é um clássico até hoje.
Na época, comprei um segundo Minimoog porque eu havia conversado com o Claudio Cesar Dias Batista, irmão dos Mutantes, e ele, que era uma espécie de Professor Pardal, disse que conseguiria separar o painel do teclado do Minimoog e, com um multicabo criado por ele, o protótipo de um teclado para pendurar como se fosse uma guitarra daria certo.
Eu tinha visto o Jan Hammer com um instrumento assim, mas não conseguia encontrar. E a saída para andar pelo palco tocando, ou até passear pela plateia com um instrumento de teclas, era essa. Dito e feito. Ficou lindo. O CCDB arrasou, e ainda pintou de vermelho.
Esse instrumento eu não tenho mais, mas está lá na foto do encarte do disco Transe Total, da Cor do Som. Quando a Cor do Som parou, eu estava construindo uma casa, e tive que vender todos os meus instrumentos para conseguir terminar a obra. Mas a vida é incrível... Anos depois comecei a comprar esses instrumentos — e outros — pouco a pouco.
Qual é o setup de Mú Carvalho hoje para os shows com A Cor do Som?
Nos shows atuais com A Cor do Som, o setup de teclados de Mú Carvalho inclui:
- Casio PX5S
- Sub 37
- Nord Electro 4 (segurando a troca pelo modelo 5)
- TX5
- Violão, ocasionalmente, para tocar algumas músicas
Perguntas frequentes sobre Mú Carvalho
Quem fundou A Cor do Som com Mú Carvalho?
Mú Carvalho fundou A Cor do Som ao lado do irmão, o baixista Dadi. A banda se tornou uma das mais bem-sucedidas do Brasil nas décadas de 1970 e 1980.
Qual foi o marco internacional de A Cor do Som em 1978?
Em 1978, A Cor do Som foi o primeiro grupo musical brasileiro a participar do Montreux Jazz Festival, na Suíça, como convidado. A apresentação, com material quase todo inédito, rendeu um disco ao vivo.
Qual foi o primeiro álbum solo de Mú Carvalho?
O primeiro álbum-solo foi Meu Continente Encontrado, de 1985, com participação especial de Luiz Eça, Zé Luiz e Egberto Gismonti, que também assinou a produção.
Que prêmio Mú Carvalho recebeu como produtor?
Como produtor, ele recebeu o CD 15 Diamantes por seu trabalho na coleção Passagens Bíblicas, que vendeu mais de 15 milhões de cópias.
Quando Mú Carvalho assinou com a TV Globo?
Mú Carvalho assinou com a TV Globo em 1994, quando começou a se dedicar mais à composição de trilhas sonoras para séries e novelas.
Qual é o setup de teclados de Mú Carvalho nos shows atuais de A Cor do Som?
O setup inclui Casio PX5S, Sub 37, Nord Electro 4, TX5 e, às vezes, um violão para tocar algumas músicas.









