Kai Schumacher: de clássico a punk rock

Kai Schumacher: de clássico a punk rock


SCHUMACHER_01Rompendo barreiras entre estilos, o pianista Kai Schumacher explora as possibilidades sonoras do piano em projetos inusitados

Seja na música ou na história, alemães sabem como construir sólidas estruturas. E também como rompê-las. O pianista Kai Schumacher é um exemplo disso. Um dos principais integrantes de uma nova corrente estética que defende derrubar as barreiras entre os diferentes estilos, o pianista alemão funde música clássica contemporânea, techno, rock, sound bits e jazz com piano acústico, instrumentos de  brinquedo e eletrônica. O músico explora elementos do Dadaísmo e da pista de dança, da avant-garde e da cultura pop, processando remixes analógicos em que o piano se transforma ora em instrumento de percussão preparado, ora como objeto de efeitos mecânicos.

O repertório de Schumacher dá especial ênfase à música contemporânea americana para piano, mas são indeléveis as marcas deixadas pela formação clássica e a atuação em bandas de rock e trabalhos na noite. Seu CD de maior sucesso, Transcriptions, homenageia os “heróis de sua infância”, como System of a Down, Portishead, Megadeth, Nirvana e outros. Além de inúmeras apresentações e estreias europeias, ele trabalha em estreita colaboração com compositores da nova geração e em projetos, no mínimo  inusitados. Em Querida, eu sou realmente inútil para você – 12 Variações sem Amanda Palmer, Schumacher trabalhou com 12 compositores que escreveram, cada um, uma variação sobre um tema composto por ele. Em cooperação com a Duisburg Philharmonic, desenvolve novas formas para a apresentação de concertos, misturando seu repertório de piano clássico e contemporâneo, com eletrônica e rock, também com instalações de luz e vídeo formando uma performance musical e visual  que atrai o público mais jovem e críticos mais velhos igualmente.

 

Qual é o conceito de projeto Insomnia? Por que o subtítulo “uma experiência de concerto audiovisual para ‘’Planetários”?
Insomnia é meu álbum-solo atual que apresenta música noturna de vários compositores americanos dos séculos 20 e 21. É uma espécie de álbum conceitual, como uma odisséia noturna – calma e pacífica, por um lado, mas também muito perturbadora e misteriosa por outro. Para enfatizar todas esses diferentes estados de espírito noturnos, tive a idéia de adicionar algum conteúdo visual para as performances ao vivo, mas de uma maneira especial: há um show de vídeo, que preenche uma abóboda, produzido em 4k especialmente adaptado para a música e exclusivamente para apresentação em planetários . Para essa série de concertos, também trabalhamos com um sistema surround 3D que nos dá a possibilidade de dividir a música em até sessenta canais diferentes e criar um ambiente sonoro muito original.
SCHUMACHER_02Qual é a sua concepção sobre o piano e por que você o usa de forma tão diferente da maioria dos pianistas?
O piano é um instrumento polivalente. Ele pode ser usado em muitos gêneros diferentes e nunca será um elemento estranho, absolutamente. Acredito que muitos pianistas estão focados apenas em uma direção particular, e esse é um tipo de especialização pela qual sou muito crítico. Comecei a tocar piano clássico com a idade de cinco anos, mas, mais tarde, sempre estive interessado em outro tipo de música, não importa se punk rock, música  eletrônica ou algum material contemporâneo sofisticado. Então, nunca tive quaisquer limitações musicais. Eu apenas colecionei o que pude e tentei fazer minha própria música. E nunca imaginei que o piano deve ser  considerado com um inadequado respeito “clássico”. Ele tem sido sempre um instrumento para mim, não um  santuário.
Apesar desse approach, você não é o compositor das obras, mas o intérprete, em seu próprio estilo. O que o afasta da composição? 
Bem, me considero um pianista, mas também um arranjador. Mas muitos dos arranjos que escrevi para mim evoluíram para longe dos originais, de muitas maneiras diferentes. Assim, gostaria de  descrever meu trabalho como uma espécie de remix pianístico, e não uma transcrição no sentido tradicional. Mas gosto da idéia de uma composição como obra de arte acabada, então mantenho as partes improvisadas de minhas performances  reduzidas ao mínimo. Se você trabalha com elementos eletrônicos fixos, por exemplo, o computador é como um parceiro digital rigoroso de música de câmara. Você geralmente não tem a chance de improvisar porque tudo tem que estar sincronizado com muita precisão. Além disso, acredito que há tanta boa música que ainda não foi descoberta. O que estou fazendo como artista no palco é recompor essa música para uma dramaturgia convincente. Por isso, a partir desse ponto de vista, minhas performances são composições de alguma forma.
SCHUMACHER_03Porque utiliza o piano para essas sonoridades diferentes em vez de utilizar sintetizadores ou algo assim?
Usar um sintetizador é a maneira mais fácil  de criar sons diferentes. E com tudo o que os modernos sintetizadores digitais oferecem, todo mundo é capaz de construir paisagens sonoras de fantasia em poucos minutos. Acredito que seja muito mais interessante explorar o piano de cauda para além das 88 teclas em busca de uma nova qualidade de sonoridade. E um piano de cauda no palco parece muito mais elegante e “estiloso” que um monte de sintetizadores.
Como é misturar Mozart e Rage Against The Machine em um mesmo trabalho?
Não misturo isso na mesma peça de música, mas no mesmo programa de recital. Acredito que há um ponto comum na história da música, a canção. A canção é a maneira mais simples de expressar seus sentimentos. E não importa se é um hino de igreja, uma canção política ou uma melodia de jazz ou rock. A canção é a forma de arte que sobreviveu aos séculos e sempre estará lá. É o menor denominador comum na música e, por isso, é a possibilidade de derrubar os muros entre o chamado clássico, o contemporâneo e a música pop.

 

 

 

 

 

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